Aqui, Jazz.

21 de abril de 2012

O dia em que eu realizei o sonho que não tinha (ou Bob Dylan em Brasília por cento e poucos reais)

Filed under: bob dylan,música — Anna @ 6:07 PM

Post original no Rockontro

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Impecável. Não consegui pensar em outra palavra ou sensação que expressasse exatamente o que foi o show desta terça-feira (17). Organização e produção cem por cento, estádio coberto (o único dia que choveu nesse mês, aposto), luz, som, o público.

E, claro, o cara. Dificilmente um artista atingirá um grau de perfeição, técnica e fuckability que Dylan atingiu. São mais de cinquenta anos de inovação e aprimoramento. A gaita nunca esteve tão boa, os arranjos estão num grau onde só nos resta ficar em pé pensando “filho da puta” e ao público só resta a certeza de que o cara sabe o que está fazendo, e é o melhor no que faz.

(Jornalistas malditos. Todas as vezes que li sobre as apresentações dele era sempre o mesmo mimimi de “ele sequer dá boa noite pro público/ ninguém consegue reconhecer as músicas”. Pra mim, se o cara vai ao show querendo boas noites e salamaleques, ele não deveria ir ao show. E se ele não consegue reconhecer as músicas, ele não tinha que dar opinião em revista.)

Nunca tive a pretensão de ir a um show do Bob Dylan, porque nunca tive disposição de desembolsar quase mil reais de ingresso, mais passagens, mais hospedagem. Eu nunca imaginei que ele viria a Brasília (porque ninguém nunca vinha a Brasília), eu nunca sonhei que pagaria relativamente pouco num ingresso. Então ele veio. E veio pra Brasília. E eu devia aquele ingresso, porque são dez anos ouvindo o cara sem pagar um real que fosse — vejam meu tapa-olho e minha perna de pau. E eu vi o show mais impressionante que eu poderia esperar.

A apresentação durou exatas duas horas. Duas horas non-stop, onde a banda — eu pagaria pra ir num show daquela banda de novo — emendou uma música na outra sem dó, o velho não se encostou um minuto e mostrou um fôlego monstro pra gaita. Os solos de guitarra foram poucos e inesquecíveis, os arranjos completamente novos e surpreendentes.

Ver o Dylan ao vivo é como ouvir um disco novo. É como quando você baixa um disco que nunca ouviu e fica lá sentado ouvindo do começo ao fim, atônito. Pra mim, foram duas horas de mão no queixo, olhos arregalados e abismação. Volta e meia eu ouvia um “caralho, caralho, caralho” de alguém que devia estar no mesmo grau de pasmação que eu. E no fim, uma senhora que estava na minha frente virou pruma menina do lado dela e disse: eu não merecia tanto.

28 de janeiro de 2012

Filed under: Uncategorized — Anna @ 7:11 PM

ah, o menino já vai? digam a ele que venha aqui, que eu tenho um recado a dar.

e que diga àquele moço que todo dia tenho feito um esforço absurdo para não morrer, mas que ele não se preocupe – é só essa minha tendência terrível pros amores impossíveis. e que tenho que admitir que me vejo sem saída e que – exatamente como ele me disse – eu não encontraria uma solução sem dor. e que eu sempre penso nele quando me racho ao meio, e que eu sei que ele acolheria com todo o amor do mundo as minhas lamentações. e que eu, que já achava insuportável ter uma alma, tenho aprendido o quanto é duro ter um coração.

diga a ele que os dias têm sido custosos, e que eu tenho me alimentado mal, não pagado as contas, lido pouco, fumado muito e andado alheia. e que só não tenho olheiras porque nisso a genética me foi boa.

que ele saiba que tenho dividido minhas noites entre o café e o vinho, que tenho preferido o frio, os dias cinzas, o silêncio e o por do sol melancólico. mas que não ando triste – e que tenho caminhado um bocado.

que ele saiba que palavras como “falta” e “saudade” têm sido comuns, mas que “flor”, “carinho” e “abraço” mais ainda. mas que não sofro e não quebro, nem hei de.

diga que não acredito no melhor, no bem e na felicidade – e que ele me perdoe a falta de fé. e que se não estou melhor, e se não estou ferida, é por pura birra, por não saber o que fazer quando essa inquietação passar.

16 de março de 2011

saudades da academia

Filed under: de passagem,repensando — Anna @ 6:39 PM

minhas aulas de poesia sempre foram divididas entre:

1) o amor pelas poesias que eu não entendia sequer a construção sintática

pequei, senhor, mas não porque hei pecado,
de vossa alta clemência me despido;
porque quanto mais tenho delinqüido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.

[gregório de mattos]
transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

[camões]

2) o amor pelas poesias que o fagner e o renato russo transformaram numa pieguice sem dó

amor é fogo que arde sem se ver;
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer;

[camões again]

minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
meus olhos andam cegos de te ver!
não és sequer razão de meu viver,
posto que tu és já toda a minha vida!

[florbela espanca]

3) o ódeo pela poesia do fernando pessoa que sempre me pareceu slogan da secretaria de obras na época do arruda

deus quer,
o homem sonha
e a obra nasce.

4) a falta de saco quando os professores empurravam letras do chico buarque pra gente como poesia (escafandrista, vê se pode)

não se afobe, não
que nada é pra já
o amor não tem pressa
ele pode esperar em silêncio
num fundo de armário
na posta-restante
milênios, milênios
no ar

5) o amor incondicional pelo castro alves

‘stamos em pleno mar. doudo no espaço
brinca o luar – dourada borboleta;
e as vagas após ele correm… cansam
como turba de infantes inquieta.

6) as poesias fofas do mário quintana

se tu me amas, ama-me baixinho
não o grites de cima dos telhados
deixa em paz os passarinhos
deixa em paz a mim!
se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

7) a preguiça, ai, a preguiça!, das aulas de parnasianismo

vai-se a primeira pomba despertada…
vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
de pombas vão-se dos pombais, apenas
raia sanguínea e fresca a madrugada…

[raimundo corrêa]

assim procedo. minha pena
segue esta norma,
por te servir, deusa serena,
serena forma!

[olavo bilac]

26 de fevereiro de 2011

Filed under: ficción — Anna @ 2:57 AM

Era da menina de estrela na testa que ele sentia mais saudades quando pensava no cerrado. Sentia falta do sol, claro, do céu azul, das flores tão coloridas em meio a poucas folhas sem cor, da universidade, do chão vermelho, do lago. Mas da menina – ah, quantas saudades da menina! – ele sentia uma falta física, uma saudade sentida, um buraco no peito.

E passou a andar com um buraco no peito por toda a cidade fria onde agora vivia. E lembrava da menina sempre, sempre. E quando lhe perguntavam se não sentia frio com aquele buraco ali descoberto no peito, naquela cidade que fazia escuro mesmo durante o dia, ele respondia que sim, mas que era um frio por dentro. Por que ele sentia falta dela de dentro pra fora.

E assim ele andava. De touca contra o vento gelado, de luvas contra o frio da água, e lembrava que a menina talvez estivesse mais radiante com o sol seco de Brasília, com o vento gelado contra o céu azul de rachar, o céu mais bonito do mundo. E lembrava da menina e da sua estrela na testa, e imaginava que ela estava de saia e de flores, e que vestia-se para sair. E que usava chinelas, porque não carecia de meias e porque tanto iria dançar que precisaria por os pés no chão para voltar à realidade.

E por causa da lembrança da menina, era ele que saia colorido nas ruas da cidade fria e ventosa, e nem parecia que estava agasalhado, em meio às pessoas cinzentas e apressadas que atrapalhavam seu passo com essa pressa toda. Mas mesmo vestido cor, e mesmo saudoso do sol, ele sentia esse frio e esse buraco no peito; era a menina que fazia falta.

E quando ele voltasse, e se ele voltasse, seria por causa da menina da estrela na testa. Da menina que fazia o cerrado ter sentido, e o sol ficar tão bonito nessa secura que faz a gente sangrar o nariz, e ainda assim ser feliz e acordar pelas manhãs.

1 de fevereiro de 2011

de coisas miúdas

Filed under: Uncategorized — Anna @ 10:45 PM

o coração, quando a tarde cai – e tudo é ameno e agradável, até mesmo a melancolia – estranha e inquieta; ele, que tem a capacidade de conter tudo (até o que não deve), de ficar enorme, de guardar gestos e palavras e olhares e voz para ficar nos fazendo lembrar depois desses detalhes que nos reacende a luz nos olhos, dói nessa mesma capacidade de ficar cada vez menor, bem pequenininho, e com toda a dor do mundo dentro.

26 de dezembro de 2010

Filed under: ficción — Anna @ 4:36 PM

Não reclamava do ar cinza, do tempo, chuvoso, do trânsito e do mau humor dos vizinhos: caminhava. Ao dobrar a esquina, o destino o alcançou.

 

03/4/2010

Filed under: ficción — Anna @ 4:34 PM

Foi quando ligou e ela não atendeu que teve a certeza que ela não o amava.  Saiu para preencher com outra o oco que ela lhe deixou.

Quando ele ligou, ela teve certeza que ele não a amava mais. Ligava para terminar tudo, estava certa disso. Não atendeu porque sabia que não suportaria a dor no peito.

 

03/04/2010

Filed under: ficción — Anna @ 4:10 PM

De frente ao espelho apertou a gravata, vestiu o sobretudo. Catou as chaves do carro e saiu sem beijar a mulher. Quando ia reclamar de algo, velho hábito que se repetiria por todo o dia, foi pisoteado pela multidão.

03/04/2010

Filed under: ficción — Anna @ 3:55 PM

Atravessou a rua a passos rápidos. A noite estava agitada, ela estava agitada.

Tocou a campainha, ansiosa. Ele abriu a porta, calmo. Entrou, entraram.

Seu dia começava ali.

 

03/04/2010

25 de novembro de 2010

café da manhã

Filed under: música — Anna @ 6:55 PM

ela vem pra mesa de manhã, põe na taça um pouco de café
ela pega o leite que eu fervi e enche a taça tanto quanto der

sem me falar
sem me olhar

põe açucar no leite com café, mexe bem devagar com a colher
bebe tudo com a calma que não tem

não me olha
não diz nada

ela esquece o gosto do café, põe os olhos vagos no jornal
ela pega a parte que eu já li e abre como um muro entre nós

sem me falar
sem me olhar

pega e acende um cigarro teatral
solta anéis de fumaça pelo ar
bate a cinza com a calma que não tem

não me olha
não diz nada

tudo o que ela quer é me ver chorar
mas chorar de manhã é tão fácil
eu quero é mais

ela sai da mesa do café
põe no espelho a cara e se acha bem
ela veste um lance pra sair
e por cima a capa que eu dei

sem me falar
sem me olhar

abre a porta num gesto natural, olha a rua, olha as horas, olha o céu
sai na chuva com a calma que não tem

não me olha
não diz nada

tudo o que ela quer é me ver chorar
mas chorar de manhã é tão pouco
o que eu quero é mais.

[vitor ramil]

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